segunda-feira, 13 de setembro de 2010

No país dos gênios invisíveis


Congresso sobre altas habilidades discute, a partir de hoje, em Curitiba, políticas educacionais para superdotados

ImprimirEnviar por emailReceba notícias pelo celularReceba boletinsAumentar letraDiminuir letraQuatro milhões de pequenos gênios caminham incógnitos pelos corredores das escolas brasileiras. São superdotados, mas ninguém repara nas suas habilidades. Quando vistos, não raro são incompreendidos. Identificá-los, compreendê-los e valorizar o que neles há de melhor é um problema não só na escola, mas inclusive dentro de casa. Felizmente, para esses geniozinhos – também para o país, que não precisa continuar desperdiçando seus talentos – há cada vez mais gente de olho neles. As maiores autoridades no assunto participam de hoje até quarta-feira, em Curitiba, do 1.º Con­­gresso Internacional sobre Altas Habilidades e Superdotação.

Após três edições nacionais, o evento se internacionalizou e terá a participação das duas maiores sumidades nessa área: o franco-canadense Françoys Gagné virá a Curitiba e o norte-americano Joseph Renzulli fará uma videoconferência. É mais uma tentativa de inserir e ampliar o tema nas escolas e na pauta dos governos, para evitar que o país siga ignorando seus gênios em potencial. Pelos cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS), 5% população têm algum tipo de habilidade especial, o que daria 2,5 milhões de superdotados entre as 50 milhões de crianças matriculadas no ensino fundamental em todo o país.

No entanto, a estimativa da OMS está baseada em testes de QI que consideram apenas a parte cognitiva, enquanto as altas habilidades podem estar na área corporal sinestésica, na música e nas artes, sem que necessariamente a pessoa apresente bom desempenho nos testes de QI. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a Associação Gaúcha de Apoio às Altas Habilidades e Superdotação constatou em pesquisa que 7,8% dos matriculados nas escolas do estado estavam nessa classificação. Aplicando essa média para todo o país, haveria então 4 milhões de crianças superdotadas apenas nas escolas brasileiras do ensino fundamental.

Trata-se de estimativas porque, pouco habituado a tratar dos seus prodígios, o Brasil nem mesmo sabe quantos eles são. Mas apesar da pouca prática, o país esboça políticas públicas para essa população tão inteligente quanto incompreendida. Desde 2005, o Ministério da Educação criou em cada estado um núcleo de atividades de altas habilidades ou superdotação, os NAAH/S, para atender esses alunos, para capacitar professores, acompanhar os pais e a comunidade escolar. Porém, o ritmo do governo não é o mesmo dessa turma talentosa. Menos de cinco mil foram identificados em todo o país e estão recebendo orientação adequada.

No Paraná, o governo do estado criou salas de recursos e dá atendimento especializado a 250 estudantes com altas habilidades em Curitiba, Londrina, Maringá, Campo Largo e Fazenda Rio Grande. Na capital, a prefeitura também mantém uma sala especial para essa finalidade. Essas salas contam com especialistas em educação especial e oferecem apoio pedagógico no período contrário ao que o aluno está matriculado, numa força-tarefa para que esses talentos não se percam na vala do descaso. A depender do entusiasmo dos educadores, há boas chances.

O objetivo das salas de recursos é incentivar a busca por conhecimento e aproveitar o potencial de cada um. A identificação da criança com altas habilidades acontece dentro da sala de aula normal e o professor é fundamental para que isso aconteça. Através de indicadores, nos quais são analisados alguns critérios, acabam sendo apontados os alunos que se destacam. Depois disso, os pais são convidados a uma reunião, na qual se aborda o tema e os filhos são convidados a participar da sala.

Outra função dessas salas especiais é trabalhar o equilíbrio emocional da criança. Não basta adiantá-la na série escolar por ser mais inteligente. A idade mental pode ser superior, mas a emocional é igual a qualquer uma da mesma faixa etária. Ela requer atenção e até um eventual acompanhamento terapêutico, para não virar um problema entre os colegas. Isso acontece porque é comum ao leigo no assunto confundir um superdotado com um hiperativo.

De acordo com a presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação, Susana Graciela Pérez Barrera Pérez, doutora em educação com ênfase em altas habilidades, a confusão ao distinguir superdotado de hiperativo acontece porque ambos são muito agitados e terminam sendo igualmente rotulados como crianças-problema. Pesqui­­­sadores por excelência, rico em hipóteses, quase sempre confirmadas pela capacidade intuitiva, esses alunos colocam em xeque a autoridade do professor, muitas vezes iletrados no assunto e que, por isso mesmo, se mostram indiferentes ou hostis ao se depararem com crianças irrequietas e contestadoras.

Família oscila entre expectativa e medo

Ao longo de 14 anos dedicados ao estudo das altas habilidades, a doutora em Educação Especial e presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação, Susana Graciela Pérez Barrera Pérez, tem se deparado com três comportamentos bem distintos de quem de repente se descobre pai ou mãe de uma criança tida como superdotada.

primeira classe de pais cria expectativas excessivas em torno do talento do filho, a segunda se recusa a admiti-lo diferente dos demais (mesmo que sob aspecto positivo) e a terceira encara isso como um problema, algo que vai dar trabalho.

Em geral, pais que excedem nas expectativas são de famílias humildes e passam a ver o filho como salvador da pátria, cujo talento será capaz de elevar o status social da família. É um erro, pois uma habilidade quando criança não garante futuro promissor. Nem sempre esse talento fará dela uma sumidade. Contudo, Susana diz ser mais comum encontrar famílias que não aceitam a superdotação do filho. Significaria aceitar que ele é diferente e sujeito aos estereótipos em torno do superdotado. “Esses pais costumam dizer que ele é mais inteligente, é mais rapidinho, mas não é diferente”, explica Susana.

O problema não está restrito ao âmbito familiar. Para a professora, a escola, seja pública ou privada, não está preparada para identificar e atender criança com altas habilidades. O professor está acostumado com a média, e quando surge alguém acima dessa média ele não sabe como agir. Susana entende o superdotado como alguém com necessidades especiais e, portanto, carente de atenção diferenciada. O problema está justamente na dificuldade do diagnóstico.

Susana alerta para o risco de tanta inteligência ser escamoteada por sintomas que poderiam indicar exatamente o contrário, como hiperatividade, dificuldade de aprendizagem e aversão à escola. A sala de aula pode virar um ambiente de frustrações e fracassos se a escola não for capaz de perceber que a origem das dificuldades está num talento extraordinário e na capacidade acima da média. Para piorar, há o mito de que não há superdotado nas classes sociais mais pobres, ou que uma pessoa com altas habilidades necessariamente vai bem em todas as disciplinas.

Serviço:

1º Congresso Internacional sobre Altas Habilidades/Superdotação, de 13 a 15 de setembro, no Centro de Convenções de Curitiba. Abertura hoje, às 8h30.

"FONTE" GAZETA DO POVO CURITIBA

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