sábado, 24 de dezembro de 2011

[ Nelson Arns ] O Nelson da Zilda


O filho médico de Zilda Arns mora na zona rural, vai trabalhar de ônibus e prefere não ficar na dianteira da Pastoral da Criança, criada por sua mãe em 1983. É um líder discreto, cuja vida em segredo faz diferença no destino de 1,2 milhão de famílias

Nelson Arns, 46 anos, entrou no noticiário já faz um tempo. Passou a ser entrevistado principalmente depois da morte de sua mãe, a doutora Zilda Arns, no terremoto do Haiti de 2010, quando ele assumiu ainda mais responsabilidades dentro da Pastoral da Criança. No entanto, tente saber algo sobre Nelson. Procure na internet e tudo o que vai achar são declarações oficiais. Vida pessoal? Nadica de nada.

O homem é tão pouco dado a falar de si mesmo que, quando a reportagem anunciou que queria saber mais sobre ele, a própria assessora de imprensa da Pastoral ficou feliz de ter um gravador à mão. Assim poderia conhecer melhor o filho da doutora Zilda.

Aliás, ele faz questão de lembrar que é Arns, mas que também é Neumann. O pai, Aloísio Bruno Neumann, diretor do Bom Jesus e da FAE, morreu em 1978, quando Nelson tinha 13 anos, mas marcou o menino. Até pela solidariedade: não podia ver alguém sem estudo que recolhia em casa até que pudesse terminar o colégio. Resultado é que a casa Neumann, em Campo Largo, chegou a servir almoço para 13 pratos por largo período.

Moço da roça, Nelson diz que continua gostando de viver no ambiente rural de Campo Largo, onde se criou. Sai de lá de ônibus todos os dias para as Mercês, onde ajuda a comandar a Pastoral da Criança (fez questão de deixar o posto mais importante para uma voluntária, a irmã Vera Lúcia Altoé, para que ninguém falasse em nepotismo). Depois, volta para a chácara.

Não é que não goste de Curitiba – segundo ele a segunda melhor cidade do mundo para se viver. É que a melhor cidade, Campo Largo, fica tão pertinho, e o ônibus é tão fácil, que não dá para desistir da terrinha que os pais deixaram para os novos Arns. E para os novos Neumanns, é claro.

O senhor nunca quis ficar no lugar de sua mãe, como figura principal da Pastoral. Preferiu que a escolha recaísse sobre uma voluntária. Por quê?

Era até uma questão de sobrevivência da instituição. A Pastoral não pode ficar caracterizada como uma instituição da doutora Zilda ou da família dela. A mãe sempre quis que eu fizesse parte do projeto. Sempre cuidei muito da parte técnica e continuo com essa função.

A Pastoral influenciou na escolha da sua carreira?

Eu entrei em Medicina em 1981 e a Pastoral começou em 1983. Mas a Pastoral influenciou na minha escolha pela saúde pública. Já tinha entrado no curso pensando mais em prevenção do que em cura. É claro que qualquer estudante de Medicina fica fascinado com toda a tecnologia, toda a possibilidade de cura. Mas no fim você percebe que a prevenção é sempre mais importante. E tem pouca gente fazendo.

Como era ser filho da doutora Zilda?

Não tem como eu falar da minha mãe sem falar no meu pai. Eu digo isso porque em 1973, quando eu mal e mal tinha 8 anos, ela foi passar três meses na Colômbia para estudar Pediatria Social. Depois teve um curso de um ano de Saúde Pública, viajando todos os fins de semana. Isso só para citar os mais longos. E o pai cuidava da gente, cinco filhos, mesmo sendo diretor da FAE e do Bom Jesus. Era um casal que trabalhava em conjunto.

E como era a vida nesse ambiente?

A nossa família sempre foi muito grande. Meus pais sempre tiveram a preocupação de que outras pessoas pudessem estudar. Princi­­palmente meu pai, que estudou em Campo Largo até o antigo primário. Depois, veio ficar com a irmã na casa de outras pessoas para fazer o curso. Muita gente vinha do interior morar com a gente. Houve uma época em que o almoço na nossa casa tinha 13 pessoas.

O senhor sempre faz questão, quando se fala da doutora Zilda, de falar de seu pai...

É. A própria mãe teve muito essa influência dele. E mesmo o falecimento dele, com o fato de ficar viúva com cinco filhos, em 1978, moldou muito o comportamento dela.

E quando seu pai faleceu, os filhos tiveram de ajudar em casa?

Eu brinco hoje com as minhas filhas. Uma delas queria saber se podia pegar o carro para dirigir dentro da chácara. E eu falei que não. Que eu só pude dirigir o carro com 18 anos. Agora, o trator eu dirigi desde os 14 [risos]. Porque eu moro em área rural. Tinha que arar, trabalhar na terra...

Se ser filho da Zilda Arns era conviver com uma celebridade, imagine ser sobrinho do cardeal dom Paulo Evaristo Arns...

D. Paulo também teve uma influência muito grande sobre a família e sobre mim em particular, até porque eu fui seminarista em 1979.

Mas não concluiu?

É... a gente conseguiu fechar o seminário, em Santo Amaro [risos]. Como o seminário fechou, voltei para casa. Até porque não era minha vocação. Mas isso propiciou um contato ainda maior com o cardeal. Ele sempre dizia que era importante ter um hobby. O dele era ler. E ele sempre perguntava para os sobrinhos qual era o hobby de cada um. Eu disse que o meu era cuidar dos animais. Ele pensou um pouco e disse: “Melhor do que o meu”. Porque se você está cansado, preocupado, e começa a ler, não tem gosto, não vai. E o animal, queira ou não tem de limpar, dar comida. Com isso, a gente desliga dos problemas.

O senhor também leva as filhas nos eventos da Pastoral, como sua mãe fazia?

Levo quando possível. Mas nenhuma escolheu Medicina. Acho que sou menos eficiente. [risos] Tem uma coisa importante nisso porque eu, na chácara, sempre tive a oportunidade de conviver com diversas classes sociais. No plantio, na colheita... Até é uma coisa interessante sobre a erradicação do trabalho infantil. Somos contra o trabalho infantil, claro. Mas acreditamos que a criança pode participar das atividades da família. Porque participar da colheita, do plantio é trabalho.

Mas também é cultura. Você vê o pessoal trabalhar, aprende, convive. E você aprende o óbvio: que pobre também é gente. Ficou muito marcada aquela história dos jovens de Brasília que mataram o índio. Eles disseram que não sabiam que era um índio, que acharam que era um mendigo. Como se tivesse diferença. Você acaba sendo criado hoje num apartheid social. Tem escola para rico e escola para pobre. Hospital para rico e hospital para pobre. Tem igreja para rico e igreja para pobre. E isso impõe uma limitação muito grande para conhecer as pessoas.

A sua família tem uma tradição religiosa muito forte. Como isso influenciou?

Eu tinha uma família pequena, só de 23 tios e tias... [risos] E vários eram religiosos, não só dom Paulo. Isso sempre foi muito importante, mas não só no sentido de cumprir o rito. Tem de entender o que está por trás do rito.

Teve algum momento de descrença?

Eu não diria de dúvida, mas de contestação. Quando eu morava na Água Verde, a paróquia era a de Santa Terezinha, que era da elite. Quando chegava no “Magnificat” [tradicional hino mariano católico], tem um trecho em que diz. “Derrubou dos seus tronos os poderosos”. Esse pedaço o pessoal pulava, não lia. E eu perguntava o porquê. Nesse sentido, até mesmo junto com dom Paulo, a gente ficava um pouquinho “mais à esquerda” do que a média.

Mas nunca chegou à Teologia da Libertação?

Em 1985, num dos cursos da Pastoral, eu conheci um franciscano alemão que trabalhava no Maranhão. E ele me convidou para ir lá conhecer o trabalho deles com medicina comunitária. Eu tinha que escolher entre fazer uma residência ou ir para lá. Acabei indo e fiquei impressionado. Naquela época, a Teologia da Libertação era muito forte e eles tinham realmente um compromisso intenso com a “opção preferencial pelos pobres”. Eles podiam estar em Berlim Ocidental, riquíssima, e estavam ali morando em casas de taipa em Bacabal.

O senhor ainda hoje anda de ônibus...

Eu venho de ônibus todo dia para o trabalho [de Campo Largo até as Mercês]. Tem de aproveitar que a cidade propicia um transporte coletivo de qualidade. De vez em quando a gente pega no horário de pico e não tem aquela qualidade que a gente queria. Mas vai. [risos] Sou um pouco daquela fase que o Lerner conseguiu imprimir um orgulho muito grande nos curitibanos, por ter uma prática diferenciada: uso do transporte coletivo, coleta do lixo, modelo sustentável. Uma vez estive numa reunião da Organi­­zação Mun­­dial da Saúde, em Genebra. Quando me apresentei e disse que era de Curitiba uma senhora falou: “Não é possível, até aqui ouço falar em Curitiba”.

A cidade piorou?

Às vezes, sinto um pouquinho de falta [da Curitiba dos anos 80]. Morava na Água Verde, ia a pé para o Hospital de Clínicas mais de uma vez por dia. Eu lembro que eu atravessava todas as ruas, até a Visconde de Guarapuava e nem olhava. Saía da calçada e sabia que o motorista, ao ver um pedestre atravessando, ia parar. Aqui, em frente à Pastoral, tem duas lombadas. Você faz sinal e o pessoal não para. E precisava disso, de voltar a ter o orgulho de uma cidade...

O que precisa para mudar isso?

Minha mãe sempre falava: para formar massa crítica você precisa de vários atores falando ao mesmo tempo. E manter a insistência até que o comportamento mude. Para qualquer mudança, é preciso ter conhecimento, atitude positiva e também a prática.

Como foram esses dois anos sem a doutora Zilda?

Quando o pai morreu, passou um temor na mãe que, assim como ele faltou do dia para a noite, ela podia faltar também. Virou um processo familiar. Ela sempre contava tudo para a gen­­te, mostrava onde estavam os documentos. A gente controlava a conta corrente. Se acontecesse algo com ela, ela queria que a gente tocasse a vida. Isso era muito forte nela. Tudo tinha que estar preparado quando ela faltasse. Na Pastoral, a mesma coisa. Ela ia numa reunião, voltava e contava tudo o que tinha acontecido. O outro aspecto é que ela era um pé de boi para trabalhar. Quando ela ia nos estados, colocavam duas coordenadoras se revezando para ir com ela. No fim do dia, as duas estavam cansadas. E ela, com 70 e poucos anos, estava inteira.

"Fonte" Gazeta do povo

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