sexta-feira, 19 de maio de 2017

A ITAPOAENSE LUANA GRABIAS EMBARCA PARA REPUBLICA THECA DISPUTAR O MUNDIAL ESCOLAR



A cinco dias de pisar em Praga, na República Tcheca, a equipe de futebol feminino de Chapecó fez o penúltimo treino ontem no campo do Santo Antônio para ajustar detalhes técnicos. Sem tirar os olhos do campo, o coordenador do projeto, Amauri Giordan, mal falava. “Depois eu converso, preciso prestar atenção”, dizia, justificando o porquê não falava com a imprensa naquele momento. A atenção do professor era óbvia: com o desafio de representar o Brasil no Mundial Escolar, qualquer detalhe pode fazer a diferença fora de casa, e com a invencibilidade da final do Campeonato Brasileiro, disputado no mês passado, a confiança da equipe não pode ser abalada para que outra taça seja conquistada pelo time de Chapecó.
A equipe treinada pelo técnico Cleto Schuster garantiu a vaga no Mundial Escolar após sair invicta do 8º Campeonato Brasileiro Escolar de Futebol Feminino disputado em Belém/PA em abril. Única escola pública da competição, equipe formada pelas alunas da EEB Lourdes Ângela Sarturi Lago, do bairro Bela Vista, desbancou cinco times sem levar nenhuma derrota e agora carrega o desafio de representar o Brasil na modalidade.
“O nosso projeto sempre teve muita dificuldade porque é uma escola pública. Estávamos desde 2012 correndo atrás dessa vaga e conseguimos após muita luta. Mas as próprias meninas do projeto vislumbravam isso, o que foi passando de geração em geração. E é isso que é interessante. Elas conseguiram conquistar esse título nacional pela primeira vez na nossa escola, mas tem toda uma história”, explicou Giordan no intervalo do treino.
Sem recursos próprios suficientes, o futebol feminino de Chapecó mostra que não é só de um bom caixa que faz uma equipe. As contas do projeto que fecham com um repasse da Prefeitura de R$ 25 mil ao ano (R$ 2,5 mil ao mês) não são capazes de pagar salários a todas as atletas, e por isso apenas às que são chamadas de outras cidades recebem os benefícios, enquanto outras seguem treinando por apenas paixão.
Para atingir o ideal e garantir repasse as cerca de 40 atletas que treinam no projeto mais valores para manutenção básica, Giordan calcula que esse montante deveria ser 700% a mais, chegando a R$ 200 mil ao ano.
O problema da falta de caixa é tamanho que quase deixou as meninas longe da competição que lhes garantiu a vaga no mundial. Um pedágio nas ruas de Chapecó precisou ser feito para arrecadar valores que garantissem a ida da equipe na competição.
Com suor, luta e boa bola no pé, as meninas não só conseguiram ir como agora fazem a contagem regressiva para a competição mais importante do time. Mas dessa vez, com viagem e estadia arcadas pela Confederação Brasileira de Desporto Escolar (CBDE).
“As meninas carregam toda a luta do Oeste, a luta da Chapecoense. É aquela coisa de ser guerreiro e não desistir”, frisa Giordan.
A competição começa no domingo, dia 21, e vai até o dia 29. Durante essas dias, as meninas terão o desafio de encarar times da Índia, Áustria, Dinamarca, Alemanha e China.
Para se preparar para a competição, Giordan e o treinador Cleto Schuster conversaram com dirigentes de outras escolas que já representaram o Brasil no Mundial. Além disso, durante os 20 dias que transcorreram da vitória em Belém até os dias que antecedem a ida da equipe, Schuster trabalhou o físico das atletas e a manutenção do esquema 4-3-3.
“Depois da vitória Brasileiro nos motivamos muito mais para o mundial para representar nossa nação. Dentro desses dias fizemos um trabalho voltado principalmente na recuperação das meninas, porque em Belém/PA foi muito puxado, então trabalhamos em cima disso e melhorando a equipe taticamente e no posicionamento”, explicou o técnico.
A viagem das meninas está marcada para sexta-feira, quando 16 atletas mais comissão técnica deixam Chapecó para ir a São Paulo e então seguir para Praga. O retorno do grupo deve acontecer só no dia 31 de maio.
Natural de São José dos Pinhais/PR, Luana Karoline Grabias integrou a equipe de Chapecó em fevereiro deste ano após convite da comissão técnica da equipe. Na época jogando pelo Curitiba, a atleta ficou conhecida pelo time do Oeste após ser emprestada pela equipe paranaense ao Criciúma para disputar os joguinhos no ano passado. O bom desempenho da atleta a fez ser chamada para Chapecó que sem hesitar deixou o Paraná para se mudar sozinha a Chapecó.
E os frutos não demoraram: em três meses na equipe, Luana se tornou a artilheira do time, com nove gols marcados.
Mas apesar do título, a atleta de 17 anos desabafa, sentada no gramado do campo do Santo Antônio, dos ônus e bônus de ser uma jogadora de futebol feminino. “Houve um tempo que pensei em desistir. Nunca é fácil pra gente. Os gastos eram muitos entre transporte, alimentação e parecia que não compensava, pois sei que o futebol feminino tem sua parcela de desvalorização. E eram gastos que eu não teria se não estivesse jogando. Mas depois de um tempo mudei de ideia e depois que passou o Brasileiro e me ver como artilheira da equipe, olhei para tudo e pensei: e se eu tivesse desistido naquele tempo? Será que isso foi por acaso? Hoje não penso mais nisso. Tem seus desafios, mas a paixão pelo futebol é maior. Eu nasci pra fazer isso, estou no caminho certo”.
Em Chapecó, Luana vive com outras jogadoras da Female no bairro Saic e cursa o 3º ano do Ensino Médio na EEB Lourdes Ângela Sartori Lago, no período noturno. A rotina da atleta é puxada e ela precisa conciliar as aulas à sede de jogar. Por morar longe da escola em que estuda e depender de carona, conta que alguns dias foi a aula sem tomar banho, ou teve poucas horas de sono para acordar cedo e poder treinar.
Mas o esforço vale. Com apoio da família de Curitiba e a paixão pelo futebol, Luana abraçou o time de Chapecó e agora sonha com o título no mundial. “Conhecer o mundo jogando é uma coisa muito gratificante. Nossa ida não é um presente de 15 anos. Sofremos bastante aqui, mas estamos sendo recompensadas porque não é sempre que um time feminino vai pra fora com tudo pago e participa de uma competição desse tamanho. E futebol é isso: é uma coisa que quando você entra você não consegue mais sair. Se faz por amor, não consegue largar”, defende.

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