quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Curitiba, Do velório pra faculdade: jovem aprovado na PUCPR emociona com sua história de amor e superação


Aos portões da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o intenso movimento de alunos em pleno domingo de vestibular complicava o trânsito nas imediações do câmpus, localizado no bairro Parolin, em Curitiba. Em meio à turba de jovens agitados, Felipe Riskovski, 18, quase passava despercebido. Quem visse de fora o semblante austero do rapaz jamais imaginaria que, horas antes, ele velava o corpo do próprio pai após 9 longos dias de angústia vividos pela família na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital do Trabalhador. A despeito da dor do luto e dos protestos da mãe, Cecília, o estudante optou por fazer a prova e, agora, comemora a aprovação no curso de Ciências Biológicas pela própria PUC.
Tudo começou numa noite, na primeira semana de outubro. No bairro Pilarzinho, o sossego na casa dos Riskovski foi interrompido pelo toque do telefone. Do outro lado da linha, a notícia que traria abaixo a família veio de supetão.
“Um colega de trabalho do meu marido ligou dizendo que ele tinha se acidentado em serviço e uma ambulância o tinha levado até o Hospital do Trabalhador”, lembra Cecília. Ao indagar o que de fato tinha acontecido, a desconfortante resposta deixou perplexa a manicure. “Não sabemos o que foi. Somente que é muito grave e o Josuel não está nada bem”, replicou o amigo.
Nas horas seguintes o susto se transformou em angústia. Já no saguão do hospital, a notícia de que Josuel Riskovski sofrera lesões cranianas irreversíveis só não trouxe maior desalento que o decreto do médico. “O doutor disse que ele tinha algumas horas de vida, apenas”, recorda Cecília.
Enquanto isso, na residência da família, no bairro Pilarzinho, Felipe tentava se concentrar nos estudos. Ainda sem saber exatamente o que tinha acontecido com seu pai, o jovem estava determinado a concluir a rodada de exercícios daquela noite. A persistência não era sem razão.
“O Felipe sabia o quanto seu pai se orgulharia ao ver o primeiro filho prestando vestibular. Esse era um dos assuntos principais entre os dois no último ano e a coisa que o Felipe mais queria era passar para honrar o pai”, conta Cecília. Diante do choro da mãe, algumas horas mais tarde, o rapaz entendeu a gravidade da situação. “Mesmo assim ele não desanimou. Se desdobrou entre as horas de visita na UTI e a preparação para a prova da PUC que aconteceria em poucos dias”, revela Cecília.
 Felipe, novo calouro da PUCPR. Foto: Colaboração/Cecília Riskovski

Apegado ao pai, Felipe crescera dividindo com ele suas maiores paixões. “Eles viviam juntos desde que o Felipe era pequenininho. Os dois conversavam muito, sempre, e sabiam tudo da vida do outro. Tinha coisa que o Felipe contava pro Josuel e eu ficava sabendo só depois como, por exemplo, a escolha do curso dele. Um era o xodó do outro”, conta a mãe. Amigo e confidente do rapaz, Josuel trabalhava como caixa num estacionamento no bairro Água Verde e as causas do acidente que o vitimou são, no mínimo, incomuns.
“Aparentemente um objeto de ferro, pesado, caiu sobre a cabeça dele. O que nos disseram é que ele estava podando algumas folhas de uma árvore no terreno quando aconteceu. As causas do acidente ainda estão sendo averiguadas”, disse Cecília.

Angústia e expectativa

Felipe comemora com outros jovens aprovados no vestibular. Foto: Colaboração/Cecília Riskovski
Apesar da tentativa da família em manter a positividade diante do coma de Josuel, os nove dias que se seguiram à sua entrada no hospital foram regados à angústia pela situação e também pela expectativa pelo concurso da universidade. A notícia do falecimento de Josuel, no dia 13 – um sábado – no entanto abalou de forma terrível os Riskovski.
“O vestibular aconteceria no dia seguinte. Eu disse para o Felipe: ‘não vá fazer a prova’. Estávamos todos enlutados e muito tristes”, recorda Cecília. Inflexível ao apelo da mãe, Felipe se negou a desistir. “O pai tinha pago pela prova e a coisa que ele mais queria era que o Felipe passasse em alguma faculdade. Firme nesse objetivo ele manteve a decisão e foi em frente”, revelou Cecília.
Concomitante à prova, que aconteceu no dia 14, o velório de Josuel acontecia. Para manter a concentração, Felipe mantinha a mente fixa no pai e em toda a motivação que recebera ao longo de sua trajetória. Ao fim do teste, o jovem juntou as energias que ainda lhe restavam para dar o último adeus ao patriarca. “Ele saiu e foi correndo para o enterro. Foi um dia muito marcante para ele”, diz a mãe.
Ainda misturada ao sofrimento, a honra ao sonho de Josuel veio na lista de aprovados, divulgada na tarde desta terça-feira (23) pela instituição. Motivo para sorrir, mesmo em meio ao luto. “Estou muito orgulhosa do Felipe por toda a garra que ele demonstrou nesse tempo. Tenho certeza que o Josuel também se orgulharia demais”, disse Cecília emocionada à reportagem.
E não para por aí. Segundo a mãe, a expectativa agora é pelo resultado do vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que aconteceu no último domingo (21). “Ele disse que foi bem na prova e está otimista. Pode ser que daqui a alguns dias estejamos comemorando novamente”, afirmou.
Para fechar a matéria, a reportagem bem que tentou mas não conseguiu uma palavrinha do Felipe. “Ele está no banho de lama da PUC”, explicou a mãe. Então deixa ele comemorar. Boa sorte, Felipe!

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